O cara do posto. Muita gente me conhece assim.
E eu entendo e gosto.
Porque quando a gente decidiu partir pra dentro da máfia de combustíveis no Rio de Janeiro, aquilo não ficou restrito à uma operação ou a um vídeo que viralizou.
Nossa ação expôs um sistema que, durante anos, operou na cara de todo mundo, cobrando a mais, enganando, lucrando em cima de quem trabalha duro e não tem tempo nem ferramenta pra se defender.
E, de repente, aquilo deixou de ser só um problema invisível e virou algo que as pessoas passaram a enxergar. E quando enxergam… não aceitam mais.
Mas minha história não começou nos postos de gasolina.

Prazer, João Pires.
Um João que, como todo brasileiro, tem uma história que é comum e única ao mesmo tempo.
Eu nasci em Alcântara, São Gonçalo.
E cresci entendendo cedo que, pra quem vem de onde eu vim, a vida não costuma oferecer atalhos.
O que ela oferece é escolha.
Uma escolha que pra muitos é difícil, mas pra mim sempre foi óbvia.
Porque eu sou filho da coragem. Não como figura de linguagem, mas como realidade.
Da coragem de uma mãe que, aos 16 anos, ouviu que pra seguir com o companheiro teria que abrir mão do próprio filho.
Bom, olha eu aqui.
E da coragem de um pai que me escolheu como filho.
Um cara que já foi baleado, viu a morte de perto e que, ainda assim, decidiu continuar cumprindo sua missão como policial militar.
É por isso que coragem pra mim não é só uma palavra, é minha referência de vida.

Referência que fez aquele moleque simples, como muitos por aí, que jogava bola descalço na rua, entender que aceitar o destino que já tinham desenhado pra ele não era uma opção.
Quando disseram que não seria fácil estudar numa boa faculdade, eu fui lá, ralei e passei em segundo lugar para a UFF.
Quando disseram que eu era novo demais pra fazer diferença, eu fui trabalhar, me envolver, ajudar a construir investigações que mostraram como muita gente usou a pandemia pra transformar crise em oportunidade de lucro, e que derrubaram até governador.
A partir daí, algumas coisas começaram a se encaixar de um jeito que não dava mais pra ignorar.

E foi com esse olhar que a gente chegou na máfia dos combustíveis.
Ali ficou claro que não se tratava apenas de fiscalizar bomba adulterada ou medir combustível entregue a menos.
Existia uma engrenagem organizada, com método, proteção e, principalmente, com a certeza de que dificilmente alguém mexeria nesse “vespeiro”.
E quando decidimos bater com força nessa máfia, a reação veio na mesma proporção.
Vieram pressões, tentativas de interrupção do trabalho, gente poderosa incomodada com o que estava sendo exposto e, inevitavelmente, o movimento para que tudo voltasse ao que sempre foi.
É nessa hora que muita história termina.
E é justamente aí que a nossa história tomou outro rumo.
Porque, no meio desse processo, houve uma decisão que não foi minha.
Houve a escolha de permitir que aquilo continuasse.
A escolha do ex-prefeito e futuro governador Eduardo Paes.
Um cara que, mesmo diante de pressão direta e de interesses claros sendo afetados, optou por não interromper o trabalho e assumir o custo de deixar que ele avançasse.
Isso não é detalhe.
Porque, sem essa decisão, a minha coragem individual seria insuficiente pro trabalho continuar.
Com ela, a coragem passou a produzir consequência.
E quando a consequência aparece, a gente entende que o problema nunca esteve restrito ao posto de gasolina.
O que estava ali era só a parte visível de um sistema muito mais amplo, que se sustenta exatamente na distância entre quem sofre o abuso e quem tem poder para impedir que ele aconteça.
Diminuir essa distância é o que muda o jogo.

E é isso que, naturalmente, leva ao próximo passo.
Não como ruptura, não como ambição pessoal, mas como continuidade de um trabalho que entregou resultados e quer fazer ainda mais.
Fiscalizar resolveu o flagrante, mas não alterou a regra.
E enquanto a regra não muda, o sistema encontra novas formas de continuar funcionando.
Levar essa experiência para a Assembleia Legislativa é, no fim das contas, uma forma de atuar onde essas regras são definidas, com o mesmo princípio que guiou tudo até aqui: enfrentar o que precisa ser enfrentado e não negociar aquilo que não pode ser negociado.
Porque, no fim, não se trata de trajetória individual nem de ocupação de espaço político.
Se trata de garantir que o lugar onde as decisões são tomadas esteja, de fato, a serviço de quem vive as consequências delas todos os dias: o povo trabalhador do estado do Rio de Janeiro.
E isso só será possível se eu puder contar com você nessa dura batalha.
Dignidade não se negocia.
Princípio não se abandona.
E vocês me ensinaram que quando alguém decide lutar de verdade, o Rio inteiro luta junto!

